Acontece alguma coisa no seu dia e, por um instante, você pensa em contar para aquela pessoa. Depois, lembra da ausência. O luto pode aparecer nesse intervalo pequeno, quando uma situação comum encontra uma história que continua importante.

Perder alguém pode mudar a rotina, a forma de se reconhecer e o futuro que parecia possível. Cada vínculo tem uma história. Por isso, compreender um luto exige mais do que contar os dias desde a morte ou observar se a pessoa ainda chora.

Talvez uma das perguntas mais delicadas seja como continuar vivendo e, ao mesmo tempo, encontrar um lugar para o que foi vivido com quem morreu. Essa construção pode levar tempo e não precisa começar com uma resposta pronta.

O que as cinco fases do luto explicam — e o que não explicam

Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação ficaram conhecidas como as cinco fases do luto. O contexto original, porém, merece cuidado: em On Death and Dying, publicado em 1969, Elisabeth Kübler-Ross reuniu entrevistas e observações com pessoas gravemente doentes, muitas diante da própria morte. Não se tratava de um experimento que demonstrou uma sequência universal para pessoas enlutadas. [1]

Seu trabalho ajudou a abrir espaço para escutar essas pessoas e marcou a história do cuidado no fim da vida. Isso se relaciona ao desenvolvimento dos cuidados paliativos, mas não permite descrever todos os participantes como pacientes de serviços organizados exatamente como os atuais.

A crítica é ao uso das fases como roteiro obrigatório. A própria obra contém experiências que não seguem uma linha simples. A literatura posterior questiona orientar enlutados como se todos precisassem sentir as mesmas coisas, na mesma ordem, até chegar a uma “aceitação” definitiva. [2]

Raiva, tristeza ou descrença podem fazer parte de um luto. Não sentir alguma delas não significa estar fazendo algo errado. E a palavra “depressão” nesse modelo histórico não basta para diagnosticar um transtorno depressivo.

As quatro tarefas de Worden: uma forma de compreender a adaptação

J. William Worden propôs quatro tarefas para pensar o que a perda pode exigir de quem fica. “Tarefa”, aqui, não é dever de casa nem lista com prazo. É uma referência clínica para compreender necessidades que podem se sobrepor e voltar a aparecer em diferentes momentos. [3]

  1. Reconhecer a realidade da perda

    Saber que alguém morreu e se deparar com o que essa ausência significa no cotidiano são experiências diferentes. Pode ser preciso reconhecer essa realidade muitas vezes: numa data, numa cadeira vazia, numa decisão antes compartilhada. Reconhecer não significa gostar do que aconteceu ou deixar de sentir saudade.

  2. Dar espaço à dor do luto

    A perda pode trazer tristeza, raiva, culpa, alívio e sentimentos difíceis de nomear. Elaborar essa dor envolve encontrar formas possíveis de lidar com ela. Isso não exige chorar sempre, falar quando não se quer ou permanecer mergulhado no sofrimento. O cuidado respeita o que a pessoa consegue sustentar e o apoio de que dispõe.

  3. Adaptar-se à vida sem a presença física daquela pessoa

    Há ajustes práticos, como lidar com contas ou reorganizar a casa. Há também mudanças na identidade, nos papéis e nas crenças sobre a vida. Perguntas como “quem sou eu agora?” ou “como vou fazer isso?” podem precisar de tempo, companhia e ajuda concreta.

  4. Encontrar uma conexão que possa acompanhar a continuidade da vida

    Na formulação revisada de Worden, seguir vivendo pode coexistir com uma ligação duradoura com quem morreu. A história pode permanecer nas lembranças, nos valores e em maneiras de cuidar. A continuidade da própria vida não exige apagar essa pessoa nem substituir o lugar que ela teve.

Essas tarefas não são quatro novas fases. Sua utilidade está em ajudar a compreender o que precisa de cuidado, e não em avaliar se alguém está “avançando corretamente”.

O processo dual: olhar para a perda e cuidar da vida

Margaret Stroebe e Henk Schut propuseram o Modelo do Processo Dual do Luto. Ele descreve a oscilação entre lidar com a perda e lidar com a restauração da vida cotidiana. [4]

Em alguns momentos, a atenção se volta à saudade, às lembranças e à dor da ausência. Em outros, vai para preparar uma refeição, aprender algo que a pessoa fazia ou participar de uma atividade. Esses movimentos podem se alternar, sem calendário ou proporção ideal.

Ter um momento leve não mede a importância do vínculo. Voltar a sofrer depois de um dia melhor também não prova que você regrediu. Essa oscilação ajuda a compreender por que o luto pode ser tão variável.

O modelo é uma referência para entender o processo, não uma ordem para se distrair nem para falar da perda o tempo inteiro. O que ajuda depende do momento e da função que cada atividade tem na vida da pessoa.

Dar sentido à história sem precisar justificar a morte

Há perdas que abalam a maneira como a pessoa entendia a si mesma e o mundo. O trabalho de Robert Neimeyer sobre reconstrução de significado ajuda a pensar como essa experiência pode ser integrada à história de vida. Isso não obriga ninguém a encontrar uma razão boa para a morte ou a transformar sofrimento em aprendizado. [5]

Talvez hoje não seja possível encontrar sentido no que aconteceu. Ainda assim, pode haver espaço, aos poucos, para reconhecer o que essa pessoa representou e como essa história continua fazendo parte de você.

Um vínculo pode ser lembrado com afeto e também com ambivalência, mágoa ou assuntos que ficaram em aberto. Dar lugar a essa história não exige idealizar quem morreu, perdoar ou sentir gratidão.

A literatura sobre vínculos contínuos questiona a ideia de que adaptar-se exige romper toda ligação com quem morreu. Algumas pessoas encontram conforto em contar histórias, preservar um objeto ou manter um costume. Outras precisam de distância de certas lembranças. Não existe uma forma de manter o vínculo que ajude igualmente a todos. [6]

Você pode buscar apoio sem esperar chegar ao limite

Apoio pode ser companhia, ajuda com a rotina ou um espaço onde não seja necessário esconder a saudade para deixar os outros confortáveis. Às vezes, um pedido concreto facilita: “Hoje eu queria falar dele” ou “Preciso de ajuda com as coisas da casa”.

Quando o sofrimento ocupa quase todo o cotidiano, necessidades básicas ficam difíceis de atender ou há muita desesperança, uma avaliação profissional pode ajudar. Não existe um prazo único que, sozinho, diga se o luto está bem ou mal; o contexto, a cultura, o sofrimento e o impacto na vida precisam ser considerados.

Se houver risco de se machucar ou dificuldade de se manter em segurança, procure ajuda imediata em um serviço de urgência e a companhia de alguém de confiança.

A psicoterapia pode oferecer um lugar para compreender essa perda e o vínculo, respeitando seu ritmo e as mudanças que a vida está exigindo. Você pode conhecer a psicoterapia on-line ou o atendimento presencial em Brusque.

Continuar vivendo pode incluir levar essa história consigo, de uma forma que também deixe espaço para a vida que ainda está acontecendo.

Referências e leituras

  1. KÜBLER-ROSS, Elisabeth. On Death and Dying. New York: Macmillan, 1969. Contexto histórico da obra na Fundação Elisabeth Kübler-Ross.
  2. STROEBE, Margaret; SCHUT, Henk; BOERNER, Kathrin. Cautioning Health-Care Professionals: Bereaved Persons Are Misguided Through the Stages of Grief. OMEGA — Journal of Death and Dying, v. 74, n. 4, p. 455–473, 2017.
  3. WORDEN, J. William. Aconselhamento do luto e terapia do luto: um manual para profissionais da saúde mental. 4. ed. São Paulo: Roca, 2013. Capítulo 2: compreendendo o processo do luto. Tarefas apresentadas em paráfrase, incluindo a formulação revisada da quarta tarefa.
  4. STROEBE, Margaret; SCHUT, Henk. The Dual Process Model of Coping with Bereavement: Rationale and Description. Death Studies, v. 23, n. 3, p. 197–224, 1999.
  5. NEIMEYER, Robert A. Meaning Reconstruction in Bereavement: Development of a Research Program. Death Studies, v. 43, n. 2, p. 79–91, 2019.
  6. KLASS, Dennis; SILVERMAN, Phyllis R.; NICKMAN, Steven L. (org.). Continuing Bonds: New Understandings of Grief. Taylor & Francis, 1996.